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Tuesday, March 10, 2015

Apollo 13, a odisséia dos homens sem medo



ESPECIAL
Apollo 13, a odisséia dos
homens sem medo

22 de abril de 1970

Este maravilhoso libelo escrito em 1970  na revista VEJA é um sonho, parece uma utopia. Mas foi assim, eu vivi isto, era criança. Hoje tolos e arrogantes afirmam que os homens não chegaram a Lua. Decididamente não sabem o que estão falando. Acredito na humanidade e na sua infinita capacidade de superação. E em coragem, como desses três heróis, Lovell, Haise e Swigert. Leiam. Vão se admirar!



A bola de fogo riscou o céu a quase 40.000 quilômetros por hora. Mas foi contida violentamente pelo formidável atrito com o ar e, a 3.000 metros de altura, três grandes pára-quedas de gomos vermelhos e laranja conseguiram transportá-la suavemente, varando as densas nuvens que cobriam o oceano Pacífico, a uns 1.000 quilômetros a sudeste de Pago-Pago (a cerca de 12 500 quilômetros de Brasília). O pouso tranqüilo da nave Odisséia, às 3 horas e 8 minutos da tarde de sexta-feira, foi saudado pelas estridentes sirenes da Feira Mundial de Osaka, no Japão, dos edifícios dos jornais de Buenos Aires, Argentina, e pelos sinos das igrejas de Gallup, Novo México (EUA). A Bolsa de Valores em Nova York parou e uma chuva de papel picado enfeitou o ar carregado da Wall Street. Durante 83 horas, os perigos que os tripulantes da nave - agora flutuando sem bandeira nas águas também mansas do Pacífico - viveram perto de outros mundos conseguiram unir, nas orações e manifestações de solidariedade, quase todos os homens da Terra. Centenas de milhões de pessoas, em todo o mundo, interromperam suas atividades para assistirem, pela televisão, à operação de resgate feita por helicópteros da Marinha americana. Em Viena, os políticos que procuravam formar o novo governo austríaco de coalizão abandonaram as conversações; o primeiro-ministro britânico Harold Wilson cancelou um discurso em Dalington; em Los Angeles, durante as últimas horas, até o crime tirou uma folga; e em Las Vegas, os dados com suas combinações de pontos pretos ficaram por alguns momentos esquecidos sobre o pano verde das mesas de jogo.

Mas a emoção de toda a humanidade reunida não foi suficiente para atravessar a potente couraça da nave Odisséia, que na reentrada da atmosfera suportara 2.300 graus centígrados de calor. Quando, com o auxílio dos homens-rã, passaram da nave para o bote de borracha que os esperava junto à escotilha, os astronautas James Lovell, Fred Haise e John Swigert não mostraram nenhuma emoção. Mesmo depois de transportados pelos helicópteros para bordo do porta-helicópteros Iwo Jima, as únicas reações foram sorrisos e acenos discretos. Nem uma palavra diante do amontoado de microfones instalados no navio à sua espera. Apenas apertaram a mão do comandante, ouviram seus elogios e acompanharam (mãos cruzadas na frente, cabeças inclinadas, olhos fechados) o capelão numa rápida oração de agradecimento. Em seguida, nove médicos examinaram os astronautas: o mecanismo humano estava perfeito, física e mentalmente. Todos os incríveis perigos pelos quais passaram não os perturbaram. Lovell, Haise e Swigert haviam sido bem treinados para sua profissão: o perigo.

E a volta? - Numa noite de setembro do 1962, o novato James "Jim" Lovell recebia uma das primeiras aulas práticas do treinamento para astronauta: gastar algumas horas da noite no Observatório de Flagstaff, Arizona, olhando a Lua. "Era completamente diferente" comentou mais tarde, "observar a Lua ali, viva, e olhá-la numa fotografia. Senti-me quase capaz de transportar-me, através do telescópio, até alcançá-la. E, por um minuto ou dois, fiquei pensando como seria possível voltar da Lua. Então ocorreu-me que a satisfação de chegar lá seria tão grande, que eu não me preocuparia com a volta." Quase oito anos depois, no dia 14 de abril de 1970, terça-feira, 0h07 (dia e hora de Brasília), os diálogos monótonos transmitidos pelos alto-falantes do Centro Espacial de Houston continuaram no mesmo tom, apesar das novidades assustadoras:

Lovell: "Hey, Houston, temos um problema aqui."
Houston: " Aqui, Houston. Repita, por favor, Jim."
Lovell: "Temos problemas. Há várias luzes de advertência acesas no painel de comando. Parece falha no sistema elétrico."
Houston: "Leiam o capítulo "Urgência", páginas rosadas, de 1 a 5. Reduzam o consumo de energia."
Lovell: "OK, anotado. Estou com o livro. Você quer dizer redução até 10 ampères, não?"
Houston: "Certo, Jim. O que você acha que houve?"
Lovell: "Ainda não sei. Ouvimos um barulho forte no MS (módulo de serviço)."
Houston: "Suspendam o funcionamento de todos os comandos possíveis. Troquem as conexões elétricas entre os geradores e informem os resultados."
Lovell: "A unidade de combustível número 3 deixou de funcionar. O oxigênio na cabina está escapando."
Swigert: "A linha elétrica B (principal) está morta. A célula de combustível número 1 e o compressor também estão com problemas."
Houston: "Parece que vocês estão perdendo oxigênio do gerador número 3. Fechem a válvula de combustível do número 3."
Haise: "A nave está oscilando. Não posso controlá-la. A pressão do oxigênio na cabina continua diminuindo."
Houston: "Liguem a bateria de emergência. Estamos estudando a possibilidade de vocês usarem o ML (módulo lunar) como bote salva-vidas."
Lovell: "Já pensamos nisso. E começamos a colocar em funcionamento o ML."
Houston: "OK, fim. Seus três geradores de energia estão parados. Restam apenas quinze minutos de energia elétrica no MC (módulo de comando). Passem para o ML e utilizem seus sistemas. Desliguem os sistemas do MC."
Lovell: "OK, Houston, agora estamos indo para o bote salva-vidas."
Houston: "Certo, fim. Começa a Era do Aquário (denominação do módulo lunar, o bote salva-vidas)."
Às 2h13 (Brasília) é cancelada a descida na Lua e são iniciados os planos para trazer os astronautas de volta à Terra na sexta-feira.

Era a volta, o mesmo tipo de regresso que não preocupava Lovell nos seus tempos de cadete do espaço. O alarme dado a 323.000 quilômetros de distância da Terra - e, por isso mesmo, o mais grave acidente da curta história espacial - foi urgente, mas sereno. Para três astronautas, ameaçados de morrerem sufocados a meio caminho do nada, a preocupação maior ainda era o fracasso da missão.

O 13 dá azar? - Até surgirem os problemas, ninguém se preocupava com os três homens lá em cima. Para a maioria dos homens, as expedições lunares haviam-se tornado cansativamente perfeitas e, portanto, não interessavam mais. As minorias fanáticas por assuntos técnicos também estavam tranqüilas: haviam assistido a um show de variedades espaciais transmitido em cores por algumas estações de televisão (as principais redes dos Estados Unidos não o transmitiram por considerá-lo rotineiro). Marilyn Lovell e seus quatro filhos, Mary Haise e os três filhos (espera outro para junho), J. Leonard Swigert e esposa, pais do solteiro Swigert, foram, ao lado do pessoal do Centro de Controle dos Vôos Espaciais Tripulados de Houston (Texas), os telespectadores mais interessados. Quando terminou o show lunar, os familiares ergueram brindes ao sucesso da expedição e os técnicos enviaram felicitações formais aos protagonistas, seguidas de nova tarefa: observar o cometa Bennett e se possível fotografá-lo.

Imediatamente após o show, o drama e as risadas foram apagados pela apreensão. Seria a fatalidade? Preocupada com a grandeza sideral, a elite da Nasa não se deixa levar por crenças tão terrenas. E conseguiu provar (hoje a opinião pública mundial considera o retorno da Apollo 13 um sucesso maior até que a conquista da Lua) quê o número 13, afinal, não merece a sua fama.

O azar do número 13 é urna das três grandes superstições americanas (as outras duas: gato preto e passar sob escada). Em prédios de apartamentos e hotéis freqüentemente não existe o andar número 13 (salta do 12 para o 14). Não há hipótese de o 13 dar sorte, como acontece no Brasil. A superstição atinge a numeração nas camisas de jogadores de esportes coletivos, os cavalos de corrida e o número de pessoas à mesa. Mas, apesar da tradição americana, 13 era o número do gigantesco conjunto Saturno-Apollo encarregado da terceira missão de pouso na Lua no espaço de nove meses. Os cientistas marcaram o lançamento, pelo horário de Cabo Kennedy, para as 13 horas, 13 minutos e 13 segundos do dia 11 último (19h13 GMT ou 16h13 de Brasília). Na "time table" (cronograma) da missão, onde é determinada cada etapa do vôo em horas e minutos, mais de 29 operações estavam previstas para horários terminados com treze minutos (inclusive todos os horários de refeição e descanso).

A NASA tampouco se deixou impressionar pelos problemas surgidos antes e imediatamente após o lançamento da astronave. Quando colocado na plataforma de lançamento número 39-A de Cabo Kennedy, em dezembro do ano passado, o conjunto Apollo 13 tinha sua saída marcada para as 17h28 (do Rio) do dia 12 de março último. Três semanas antes da data, foi anunciado o adiamento para 11 de abril. O motivo? A NASA falou num reescalonamento dos vôos, provocado pelo cancelamento das Apollos 19 e 20. Mas logo depois os jornalistas descobriram um motivo adicional: durante a alunagem, a tripulação da Apollo 12 comunicara alguns problemas (entre eles a falta de visão) que teriam de ser resolvidos para a tranqüilidade da viagem da Apollo seguinte.

Em 25 de março (nesse dia Lovell completou 42 anos) as equipes de lançamento lutaram quatro horas para apagar um incêndio irrompido durante uma operação simulada de abastecimento do Saturno. Era um teste de rotina, mas o oxigênio espalhou-se mais do que devia e explodiu ao alcançar o motor quente dos caminhões blindados de salvamento, que estavam próximos. Os caminhões se incendiaram. Não morreu ninguém e o acidente passou quase despercebido aos jornalistas que cobriam a preparação do vôo. Mas, no dia 6 de abril, um dos astronautas da equipe de reserva da Apollo 13 apareceu com rubéola.

Thomas K. Mattingly 11, 34 anos, que seria o piloto do módulo de comando, não tivera a doença quando criança (como Lovell e Haise) e, portanto, não estava imune ao contágio de seu colega da equipe reserva. Estaria Swigert, piloto reserva, capacitado a substituí-lo? A dúvida manteve o lançamento em suspenso (podia ser adiado novamente, para o dia 9 de maio) até 24 horas antes do momento previsto. Mas Swigert foi aprovado e Mattingly assistiu zangado à saída da Apoio 13 (ainda estaria zangado agora?). Simultaneamente, o pessoal que trabalha na grande estação de rastreamento de Muchea, na Austrália (a segunda mais importante do sistema) ameaçou entrar em greve de vários dias. Enquanto mais esse problema era resolvido, os encarregados do lançamento descobriram um súbito aumento de pressão do gás hélio (nos tanques de combustível é esse gás que dá a pressão necessária). Essa dificuldade também foi resolvida e o foguete partiu, para comunicar minutos depois que o motor número 5 do segundo estágio deixara de funcionar antes da hora determinada (ainda antes de terminar a viagem, entre muitos outros problemas, surgiria a ameaça de um furacão que colheria os astronautas no seu pouso de emergência; a tormenta, felizmente, dissipou-se).

Todos esses problemas em nada alteraram a fria segurança dos técnicos da NASA. Nos astronautas, experientes pilotos de provas acostumados a deixarem o medo em terra, também não provocaram qualquer efeito. A opinião deles pode ser resumida nas palavras do veterano comandante Lovell, minutos depois da partida: "É muito bom estar aqui em cima de novo".

No perigo, risadas - Há uma velha discussão: os astronautas são homens ou robôs? O certo seria dizer que são uma mistura de ambos, devido a um exaustivo trabalho de condicionamento de reações. O seu corpo é submetido a todos os tipos de provas: aceleradores que os conduzem a altíssimas velocidades ao longo de um trilho, ou centrifugadores, onde sofrem as pressões fantásticas semelhantes às da saída do foguete equivalentes a de quatro a seis vezes o peso do corpo, praticamente esmagando o astronauta. Os pilotos de provas são colocados em simulacros de naves, onde uma espécie de gigantesco liqüidificador os atira para todos os lados.

Ao parar, são imediatamente obrigados a restabelecer uma rota imaginária. Em outros ambientes enfrentam a imponderabilidade, ruídos de enlouquecer e bruscas mudanças de temperatura, do calor intenso para o frio enregelante.

Em todas essas provas, o comportamento de cada um deles teria de mostrar-se estável, adequado, normal. Mas há outros testes. Passam horas e até dias em cabinas especiais dominadas pela escuridão e pelo silêncio absolutos e não podem apresentar qualquer reação de desespero. Os treinamentos - intercalados por milhares de aulas das mais avançadas ciências e técnicas - não se limitam às instalações da NASA. Espraiam-se por montanhas, florestas, mares, regiões árticas e desertos, onde aprendem a sobreviver em condições desanimadoras até para exploradores experimentados.

Mas, afinal, para que tudo isso? Qual o objetivo principal? Riscar o medo do vocabulário do astronauta, preparando-o para enfrentar com lucidez e eficiência qualquer situação de perigo. Virgil Grissom, um mês antes de morrer queimado na explosão da Apollo 6 (e depois de quase morrer afogado no fim do segundo vôo da série Mercúrio), afirmou, numa palestra no Massachusetts Institute of Technology: "O perfeito conhecimento do perigo inerente à sua profissão faz com que o astronauta se acostume com ele, sem se apavorar. Todos devem aceitar a idéia de que, mais cedo ou mais tarde, poderão ocorrer acidentes fatais com os astronautas. E essa morte não deve, de modo algum, interromper as experiências, pois alguém tem que examinar o caminho que depois será percorrido talvez por todos os homens. Essa é a nossa função".

Grissom tinha plena convicção do que disse e sabia, por experiências próprias, que ele e seus colegas, desde o começo, sempre foram homens sem medo. Em dezembro de 1958, Grissom e mais sete homens tinham sido finalmente aprovados, entre as centenas de voluntários, para a primeira turma de astronautas americanos. O Dr. Charles Berry, médico da NASA, foi conversar com eles numa sala onde só havia oito cadeiras e uma pequena mesa a um canto. A sala, com paredes de metal e totalmente estanque, era usada para acostumar os pilotos a vôos de grande altura. Os oito homens ocuparam as cadeiras e o Dr. Berry, em pé, fez um pequeno discurso, congratulando-se com eles por terem sido escolhidos. De repente, o médico tirou do bolso uma granada, arrancou o pino e atirou-a ao chão. "Essa é uma pequena lembrança", disse, saindo rapidamente da sala e fechando a porta de segurança. Sete dos homens continuaram sentados, rindo. O oitavo saltou para trás da mesa, tentando proteger-se. A granada não explodiu, era falsa. Quando ela silenciou, após um pequeno sopro de fumaça, a porta abriu-se novamente e o homem que se escondera atrás da mesa foi rejeitado: reagiu sem pensar (e seu nome nunca foi divulgado). Os outros sete - rapidamente haviam concluído que aquilo só podia ser uma brincadeira - foram apresentados à imprensa: Shepard, Grissom, Carpenter, Glenn, Schirra, Cooper e Slayton.

Na Lua, sem descer - A equipe da Apoio 13 só poderia reagir como reagiu: de maneira serena, eficiente, rápida. Surpreendida pelo desastre na viagem de ida, não mostrou medo. Os astronautas apenas sentiram decepção por não poderem levar sua missão até o fim. Mantendo uma troca intermitente de informações técnicas, tomaram as primeiras providências com absoluta precisão. Sabiam que do ponto onde estavam, mais próximo da Lua que da Terra, teriam de continuar em direção ao satélite natural e contorná-lo, por uma razão muito simples: quando um garoto vem correndo e quer voltar também correndo, sabe que basta contornar um poste com a ajuda do braço - com isso não perde o impulso inicial. E foi o que fizeram. Contornaram a Lua e ligaram os motores para impedir que entrassem em órbita lunar.

Mesmo com as reservas de água, oxigênio e eletricidade se extinguindo, enquanto o ambiente do Aquário (módulo lunar) tornava-se cada vez mais contaminado pelo dióxido de carbono, os astronautas não perderam o "senso de humor americano". Acharam muito engraçado, por exemplo, comerem hot dogs com mostarda, ao invés de usarem ketchup como recomendava o cardápio do manual. E faziam também piadas com seus companheiros em terra:

Haise: "Jimmy e Jack (Lovell e Swigert) estão no dormitório em cima, tirando uma sesta."
Houston: "Não sabemos da existência de qualquer dormitório em cima. Informem se já está nevando a bordo."

O módulo de comando transformado em dormitório, enquanto o Aquário encarregava-se de aproximar-se da Terra, estava gelado porque todos os seus sistemas foram desligados e mantidos em reserva. Mas nem o frio intenso os impedia de dormir. Na quinta-feira, penúltimo dia da perigosa aventura, o moral continuava alto. O humor, porém, ainda constante, ganhava alguns toques melancólicos:

Houston: "Como vão as coisas aí, Jim (Lovell)? Alguém dorme?"
Lovell: "Acho que Jack e Fred estão dormindo. É tudo meio cômico, Fred dorme no túnel, de pernas para o alto, com a cabeça batendo na tampa do motor de subida. E o Jack dorme no chão do Aquário, com cintos de segurança enrolados no braço para não sair flutuando por aí. De acordo com o manual, isso poderia ser chamado de dormir?"

Ao lado, o defeito - Na sexta-feira pela manhã, os astronautas preparavam-se para fazer a última correção na rota. As instruções de Houston e as respostas de Lovell continuaram atravessando o espaço no mesmo tom de voz monótono e arrastado. Não era possível perceber qualquer ansiedade ou preocupação, embora a operação, como da vez anterior, fosse extremamente delicada. Em condições normais, a nave poderia corrigir seu rumo quantas vezes fosse necessário, mas agora a energia esgotada do módulo de comando tinha de ser poupada tanto quanto o próprio ar que os tripulantes respiravam nos estreitos compartimentos da cabina. O esgotamento das baterias ou um erro de cálculo poderiam significar uma viagem sem fim pelo espaço. As 9h53 (Brasília) Lovell ligou os motores do Aquário. Durante 23 segundos, os três homens praticamente prenderam a respiração, preocupados em observar a Lua e as estrelas que tomaram como pontos de referência. O funcionamento dos motores diminuiu a velocidade da nave em 3 quilômetros por hora, deixando-a em condições de reingressar na atmosfera com um impacto ideal. Finalmente, de Houston veio a voz tranqüilizante:

Houston: "OK. Bom trabalho."
A Terra, azul, parecia agora. mais próxima e acolhedora do que nunca, apesar dos 57.000 quilômetros a serem ainda percorridos. Velocidade da Odisséia: 9.900 quilômetros por hora.
10 horas. A contemplação é interrompida por nova ordem:
Houston: "Podem soltar o módulo de serviço quando estiverem prontos. Não há pressa. Quando quiserem."
Lovell: "OK. Parece tudo bem... aqui vai o MS."
Os motores do ML foram ligados para o desengate. Simultaneamente, Swigert, na nave de comando, acionou os grampos explosivos que prendiam o MS à Odisséia.
Houston: "Uma beleza, uma beleza. Muito bem. Desprendeu sem problema."
Ao passarem ao lado do módulo abandonado, os astronautas puderam finalmente ver a extensão do desastre sofrido.
Lovell: "Está faltando um lado inteiro dessa nave. Olhem só isso! Espere, um minuto. Bem ao lado da antena principal, um painel inteiro de 7 metros saltou fora, quase desde a base do motor."
Houston (impassível): "Anotado."
Lovell: "Parece que o motor principal também foi atingido."
Houston: "Vocês podem ver o motor pelo buraco?"
Lovell: "Do jeito que está, parece apenas uma faixa marrom escura. Está tudo arrebentado."
Houston: "Tirem fotos. Mas não façam manobras desnecessárias. E, Jim, especialmente, não queremos manobras de translação."

Com as fotos, os cientistas da NASA tentarão descobrir a causa da explosão dos tanques de combustível. As 13h43 (Brasília), a última operação foi ordenada de Houston: o desligamento do fiel Aquário.
A Terra em festa - As últimas manobras no espaço já não deixavam, na Terra, nenhuma dúvida: a Odisséia chegaria bem. Nas casas de Lovell e Haise as crianças e alguns convidados permaneciam, de olhos fixos nos televisores. Os champanhas gelavam nos refrigeradores Marilyn Lovell não estava em casa. Fora a um salão de beleza preparar-se para festa da chegada do marido. Seu filho Jeffrey parecia mais preocupado com a tartaruga que recebera de presente (batizada com o nome de "Aquarius") Em Denver, o casal Swigert convidara um grupo de amigos para comemorar.

No silêncio do espaço, a Odisséia, cada vez mais impaciente por atingir seu objetivo, voava a velocidades fantásticas sugada pela atração da gravidade terrestre. Às 13h43, quando os três tripulantes já estavam instalados na nave de comando, depois de terem fechado o túnel de ligação com o ML, ela se movia a mais de 20.000 quilômetros por hora. Apenas 24 minutos a separavam do pouso no oceano Pacífico. Finalmente, o ML foi também desligado. Ao se lançarem no espaço, abandonados às forças naturais do planeta, Lovell deixou escapar a única frase carregada de emoção. Era uma espécie de gratidão expressada por um homem-quase-máquina à máquina que, a seus olhos, se tornara quase humana: "Adeus, Aquário. E muito obrigado".

Os extraordinários navegantes estavam no fim da sua aventura. Terminava a principal missão dos tripulantes da Apollo, que não é científica mas sim a de testar a astronave na prática. Trouxeram desta viagem uma conclusão: os desenhistas do projeto não deixaram nada à sorte - como no romance "Perdido no Espaço", do ex-piloto de provas e candidato rejeitado a astronauta Martin Caidin. A nave tem 56 motores, cada um com duas partidas. Necessitam somente de uma, mas previram duas para aumentar a segurança. Cada motor de partida com dois sistemas de ignição. E os fios que saem das baterias foram dispostos de modo que, mesmo falhando as baterias, ou os interruptores, ou os motores, o conjunto todo não pode deixar de funcionar. O sistema de propulsão da Apollo não admite falhas. Há nele tanta peça em duplicata, que até mesmo os dispositivos de emergência são providos de seus próprios dispositivos de emergência. É infalível. Só mostrou um defeito: falhou.

Se na missão houvesse cientistas e não pilotos de provas, o vôo fracassaria. Para ir à Lua, ainda não chegou o tempo dos homens normais

Sunday, November 09, 2014

SAIBA TUDO O QUE VOCÊ PODE VER COM UM TELECOPIO OU LUNETA




É MARAVILHOSO. É TRANSFORMADOR. MUDA CONCEPÇÕES, DESTINOS, VIDAS



Uma das primeiras perguntas feitas pelos candidatos à compra de um telescópio é sobre o que será possível ver através da ocular. Perguntas como "o que vai dar pra ver?" ou "dá pra ver Júpiter e as estrelas?" são as mais comuns e deixam qualquer principiante completamente perdido ante a compra de um instrumento.



Antes de qualquer coisa é muito importante saber que nenhum telescópio existente é capaz de fornecer as mesmas imagens que acompanham as embalagens dos produtos ou aquelas cenas deslumbrante vistas na internet ou na televisão. Nem mesmo o telescópio espacial Hubble é capaz de obter paisagens tão impressionantes. Essas imagens são fruto de longas exposições fotográficas onde uma mesma área do espaço é registrada por horas, dias e até mesmo meses, produzindo diversas cenas que são depois somadas, ou como se diz no linguajar astronômico, "empilhadas".

Outro detalhe que precisa ser lembrado é que quando observadas através da ocular, ao contrário do que se pensa as estrelas não aumentam de tamanho. Elas apenas brilham mais. Isso faz com que as estrelas antes invisíveis tenham seu brilho aumentado e possam ser vistas e estudadas. Os planetas, ao contrário das estrelas, parecem maiores e suas formas arredondadas podem ser percebidas com maior facilidade.

Como o telescópio amplifica o brilho dos objetos, aglomerados estelares e nebulosas de gás completamente imperceptíveis aos olhos humanos passam a serem visíveis, podendo revelar detalhes muito interessantes de serem analisados.


Poder de Resolução
Antes de esclarecer o que pode ser visto através do telescópio, é importante conhecer um parâmetro muito importante sobre o aparelho visual humano chamado Poder de Resolução.
Experimente desenhar dois pequenos pontos, bem próximos um do outro, em uma folha de papel. Pregue esta folha na parede e afaste-se dela até não conseguir mais distinguir um ponto do outro. Quando isso acontecer a distância angular entre os dois pontos será de aproximadamente 2 minutos de arco, ou 2'. Esse valor é típico da vista humana normal e significa que dois objetos com distância angular inferior a esta serão percebidos pelos olhos como um objeto único. Algumas pessoas com excelente visão conseguem distinguir pontos mais próximos, de aproximadamente 30 segundos de arco(quatro vezes melhor), mas são exceções.

Estrelas Duplas

No céu existem milhares de estrelas visualmente muito próximas entre si e devido à limitação explicada acima elas se parecem como um único ponto. O exemplo mais famoso é a estrela Alpha Centauri, localizada a leste do Cruzeiro do Sul.



Vista sem o uso de instrumentos Alpha Centauri é um ponto bastante brilhante, mas quando observada através de um pequeno telescópio percebe-se claramente que não se trata de uma única estrela, mas sim de duas, Alpha Centauri A e B. Se olharmos este mesmo conjunto de duas estrelas com um telescópio dotado de uma objetiva maior, veremos que existe outra estrela próxima a ele, Alpha Centauri C, também chamada de Próxima Centauri.
Com deu pra perceber, o poder de separação de um telescópio cresce proporcionalmente com o diâmetro da objetiva principal. Uma objetiva de 100 milímetros (10 cm) de diâmetro tem um poder de resolução de 1 segundo de arco (1”), ou seja, é 120 vezes melhor que nossa vista. Em outras palavras, com um telescópio de 100 milímetros de abertura é possível "resolver" uma separação angular de apenas 1 segundo de arco, 120 vezes mais "colados" do que aqueles que conseguimos ver com nossos olhos. Resumindo, um telescópio melhora a capacidade do olho em resolver sistemas muito próximos, permitindo observar detalhes completamente impossíveis de serem vistos sem o uso de instrumentos, separando objetos que à vista desarmada pareceriam um único ponto.
Magnitude Visual
Outro detalhe importante que o principiante deve conhecer se refere ao brilho dos objetos, medido em magnitudes. Nesse sistema, inventado pelo grego Hiparco no ano de 129 a.C, quanto maior a magnitude de uma estrela, menor será o seu brilho. Assim, estrelas com magnitudes negativas serão mais brilhantes do que aquelas com magnitude positiva.
Veja alguns exemplos:
 Brilhoda Lua Cheia: magnitude de -13
Estrela Sirius, a mais brilhante do céu: Magnitude -1.45
Limite da visão humana: +6
Binóculo de 50 mm: +9
Plutão: +15.1
Limite dos maiores telescópios terrestres: +28
Limite do telescópio Hubble: +30

Pela tabela acima é fácil constatar que nenhum objeto com magnitude superior a +6 pode ser visto pelo olho humano, mas um pequeno binóculo de 50 milímetros já permite ampliar este limite para 9 magnitudes, um brilho 15 vezes mais fraco!


O que dá pra ver?
Como explicado, o que realmente dá poder a um telescópio é sua "abertura". No caso dos telescópios refratores, aqueles formados por lentes, essa "abertura" é o próprio diâmetro da lente que fica à frente do instrumento, chamada de objetiva. Nos telescópios refletores essa "abertura" é dada pelo diâmetro do espelho principal. Quanto maior a abertura, mais luz se pode captar, além de permitir maiores aumentos.

E não se esqueça: o aumento máximo permitido por um telescópio é o dobro da sua abertura. Assim, um telescópio de 60 milímetros de abertura proporciona no máximo 120 vezes de aumento, enquanto um com 200 milímetros permite aumentos de até 400 vezes. Isso significa que telescópios com 60 milímetros de abertura não conseguem aumentar 700 vezes!

Exemplos Práticos
A tabela abaixo mostra o que se pode ver com diversos tipos de telescópios, levando-se em conta que os mesmos estejam instalados em local escuro e longe de fontes de poluição luminosa e atmosférica.



Telescópio Refrator de 50 milímetros
Com este simples telescópio já é possível observar estrelas de 9 magnitudes, além de permitir os primeiros estudos topográficos da Lua. Também é possível fazer observações das manchas solares e de suas fáculas (material luminoso que se observa nas imediações da mancha), desde que o instrumento esteja equipado com filtro ou anteparo de observação solar.

A observação de Júpiter também se mostra interessante. É possível perceber o achatamento polar do planeta e ver com facilidade seus quatro principais satélites. A observação de Vênus permite o estudo de suas fases e apontando as lentes para Saturno é possível perceber seus anéis, mas forma minúscula. Marte é uma pequena bolinha, quase sem definição.

Um instrumento de 50 milímetros permite distinguir estrelas duplas com separação de 5 segundos e contemplar alguns aglomerados como as Plêiades, Híades e também a nebulosa de Órion M42.


Telescópio Refletor de 60 milímetros
Este é um típico instrumento popular e apesar da pequena diferença com relação ao modelo anterior, com ele já é possível ver estrelas de 10 magnitudes e resolver sistemas duplos com separação de 3 segundos de arco. Apontando a objetiva para Saturno já é possível ver Titã, seu principal satélite, embora o planeta apareça bem pequeno e se assemelhe a uma micro miniatura.

A Lua se mostra ligeiramente mais interessante e suas crateras apresentam mais detalhes do que vistas em um instrumento de 50 milímetros. Detalhes das sombras lunares já chamam a atenção e os relevos das bordas do disco lunar são claramente notados. Não existe muita diferença ao se observar Marte ou Vênus e ambos se parecem como bolinhas arredondadas. Mesmo assim já é possível perceber as fases venusianas.


Telescópio Refrator de 75 milímetros
Um interessante instrumento de baixo custo, mas bem superior aos modelos de 50 e 60 milímetros. Com ele ja dá para ver estrelas de 11 magnitudes e separar objetos distanciados por até 2 segundos de arco. Em Marte as calotas polares já são distinguidas como um pequeno ponto branco sobre a borda avermelhada do planeta e já é possível reconhecer a região de Syrtis Magna. Em um telescópio de 75 milímetros Marte ainda se parece com uma pequena bolinha avermelhada.

Júpiter começa a revelar alguns detalhes impossíveis de serem visto com telescópios menores e o ligeiro aumento na objetiva ja permite que o observador perceba as faixas equatoriais do gigante gasoso. Em Saturno os detalhes também começam a despontar e a divisão de Cassini em seus anéis também começa a ser vista, se bem que de forma bem tênue. Os quatro satélites, Titã, Rhéa, Japeto e Thetis finalmente podem ser observados com facilidade e são vistos como pequenos pontos luminosos.


Telescópio Refrator de 95 milímetros
Superior ao modelo anterior permite observar objetos celestes de 11.5 magnitudes e desdobrar estrelas com 1.5 segundo de arco de separação. O instrumento também capacita o astrônomo a detalhar melhor os discos planetários e as sombras das manchas solares. Devido ao maior diâmetro da objetiva os aglomerados estelares se tornam mais nítidos e mais fáceis de serem contemplados.


Telescópio Refrator de 110 milímetros ou Refletor de 115 milímetros
Telescópios ideais para os amadores que já adquiriam experiência com modelos menores. Permitem ver objetos de magnitude 12 e separar sistemas estelares com 1.5 segundo de distância entre suas componentes. Quando em oposição favorável permite até mesmo vislumbrar algumas particularidades topográficas de Marte.

Na Lua, as ranhuras da superfície passam a ser perceptíveis. Em Júpiter, os detalhes das faixas se tornam mais claros e em Saturno é possível reconhecer seu anel sombrio. O aumento da objetiva em relação ao modelo de 95 milímetros revela mais um satélite ao redor de Saturno: Dionéia.

A Nebulosa de Lyra, muito apagada nos outros instrumentos, ganha vida neste instrumento.


Telescópio Refletor de 150 milímetros
Objetos muito escuros, da ordem de 13 magnitudes passam a ser observáveis. Permite também a identificação de algumas manchas aleatórias nos discos planetários de Mercúrio e Vênus, além do estudo das variações de tonalidades e dos aspectos lunares.

Em Marte é possível perceber as variações que ocorrem nas calotas polares enquanto as faixas de Júpiter são vistas com bastante nitidez. Um telescópio desse porte também permite a separação de estrelas com menos de 0.8 segundos e os aglomerados mais difíceis de serem vistos já apresentam suas feições típicas.

Utilizando uma ocular de aumento médio alguns detalhes de Urano começam a ser visíveis, embora o planeta seja apenas um difuso disco planetário. Isso ajuda a distingui-lo entre o fundo estelar mas nenhum de seus satélites ainda pode ser visto.


Telescópio Refletor de 200 milímetros
Um excelente instrumento para o amador sério que deseja ampliar seus conhecimentos. O grande diâmetro do espelho capacita o astrônomo a ver os objetos do céu profundo, conhecidos por DSO (Deep Sky objects) com mais de 13.5 magnitudes. Astrofotografias de alta resolução dos planetas e satélites já fornecem resultados de grande qualidade técnica.


Telescópio Refletor de 300 milímetros
Sonho de consumo da grande maioria dos astrônomos amadores, um refletor de 300 milímetros permite com folga as observações dos satélites de Urano e de Tritão, satélite de Netuno, além de poder desdobrar sistemas de 0.4 segundos de arco. Seu grande tamanho permite que objetos de 14 magnitudes possam ser vistos. Mesmo assim, qualquer tentativa de observar Plutão será fadada ao fracasso, uma vez que o planeta-anão tem brilho de apenas 15.1 magnitudes.

Astrofotografias digitais e registros espectrográficos feitos com um telescópio de 300 milímetros dotado de acompanhamento automático permitem o estudo sério de inúmeros detalhes das superfícies e atmosferas dos planetas.




Artes: No topo da página a Nebulosa Helix, registrada pelo telescópio Espacial Hubble e pelo telescópio do Observatório Interamericano de Cerro Tololo, no Chile. Fotos desse tipo são feitas com diversos dias de captação de luz. Crédito: NASA/ESA. Na sequência vemos a estrela Rigil Kent, a Alfa do Centauro. Com um telescópio é possível ver que não se trata de apenas um estrela, mas de um sistema estelar triplo. Por últimos vemos alguns tipos de telescópios encontrados no mercado.