Monday, February 08, 2016
Friday, January 22, 2016
Mundos e suas orbitas e distancias.
Cálculos
indicam órbita do nono planeta do Sistema Solar
Com
informações da BBC - 21/01/2016
Simulação
de computador mostrando como seria um planeta com 10 vezes a massa da Terra e
muito distante do Sol.[Imagem: R.Hurt/Caltech]
Planeta X
Os indícios da existência de um
Planeta X nos confins do Sistema Solar, prevista por Percival Lowell em 1905, vêm-se
acumulando rapidamente.
A NASA vem procurando pelo Planeta X
há tempos, mas ainda sem sucesso.
A descoberta do planeta anão VP113,
em 2012, apresentou à comunidade astronômica um corpo celeste com uma órbita que
só poderia ser explicada com a presença de um outro planeta gigante, então
calculado com 10 vezes da massa da Terra - exatamente a mesma massa calculada
por Lowell há mais de um século.
O entusiasmo aumentou há cerca de
um mês, quando duas equipes, trabalhando independentemente, flagraram dois grandes corpos celestes ainda
desconhecidos, que continuam sendo analisados. É que é difícil
detectar um planeta a essa distância porque, longe de nossa estrela, sua
luminosidade é muito baixa - ou seja, existe há possibilidade de que o Planeta
X já tenha sido visualizado.
Cálculos da órbita do Planeta X
Em 2014, dois astrônomos
espanhóis já haviam estudado mais a fundo a órbita do VP113 e de outros corpos
transnetunianos e, por meio de uma simulação em computador, calcularam que deve existir não apenas um Planeta X,
mas também um Planeta Y.
Agora, dois pesquisadores do
Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos EUA, rodaram outra simulação e
chegaram à mesma conclusão que Lowell e que a equipe do VP113, com os
resultados indicando a existência de um Planeta X, exatamente com 10 vezes a
massa da Terra, que seria capaz de explicar a estranha órbita dos objetos
transnetunianos já conhecidos.
Talvez para tentar valorizar o
próprio trabalho, eles propuseram rebatizar o Planeta X de Planeta Nove.
Provável órbita do Planeta Nove, conforme proposto
pela nova simulação. [Imagem: Batygin/Brown - 10.3847/0004-6256/151/2/22]
Planeta Nove
Pelos cálculos da dupla, esse
planeta ainda não descoberto do Sistema Solar deve ter uma órbita elíptica
muito alongada em torno do Sol. Os dados ainda são escassos, por isso os
resultados apontam para um Planeta X, ou Nove, com um ano com duração entre
10.000 e 20.000 anos terrestres.
O máximo que ele poderia se
aproximar do Sol seria 200 unidades astronômicas (ua), que equivalem à
distância da Terra ao Sol - isso o colocaria, em seu momento de maior
aproximação de nossa estrela, bem além de Plutão, na faixa de pequenos objetos
conhecidos como Cinturão de Kuiper, onde está o astro conhecido mais distante do
Sistema Solar, provavelmente um planeta anão, chamado
provisoriamente de V774104.
Simulações como estas, feitas
pelas equipes espanhola e norte-americana, são importantes porque indicam aos astrônomos
para onde direcionar seus telescópios para procurar pelo novo planeta. E
ressaltam que ainda há muito a ser descoberto sobre nosso próprio Sistema
Solar.
"Adoraria encontrá-lo",
disse Michael Brown, que fez os cálculos juntamente com seu colega Konstantin
Batygin. "Mas também ficaria feliz se outra pessoa o encontrasse. É por
isso que estamos publicando este estudo. Esperamos que as pessoas se inspirem e
comecem a procurar por ele."
Bibliografia:
Evidence for a Distant Giant Planet in the Solar System
Konstantin Batygin, Michael E. Brown
Astronomical Journal
Vol.: 151, Number 2
DOI: 10.3847/0004-6256/151/2/22
Evidence for a Distant Giant Planet in the Solar System
Konstantin Batygin, Michael E. Brown
Astronomical Journal
Vol.: 151, Number 2
DOI: 10.3847/0004-6256/151/2/22
Thursday, December 31, 2015
Linda canção. Não ao ódio, independente de ser ateu, católico, muçulmano ou crente
Belíssimo hino, esta canção fez sucesso. Lembro das madrugadas
em BH quando eu ouvia atentamente as palavras na voz desse starmen magnifico,
Lionel Richie. Ouçam e leiam.
Jesus Is Love
Father
Help Your
children
And don't
let them fall
By the side
of the road, mmm...mmm...
And teach
them
To love one
another
That Heaven
might find
A place in
their hearts
'Cause
Jesus is love
He won't
let you down
And I know
He's mine forever
Oh, in my
heart
We've got
to walk on
Walk on
through temptation
'Cause His
love and His wisdom
Will be our
helpin' hand
And I know
the Truth
And His
words will be our salvation
Lift up our
hearts
To be
thankful and glad
That Jesus
is love
He won't
let you down
And I know
He's mine
Deep down
in my soul
Jesus is
love
Oh, yes, He
is
He won't
let you down
And I know
He's mine, He's mine, He's mine, He's mine, all mine
Forever,
oh, in my heart
Help me,
heart, heart
Ooh...ooh...
(Deep in my
heart)
I know, I
know, I know, I know
Ah, 'cause
His love's the power (Power)
His love's
the glory (Glory)
Forever
(Ever and ever)
Ooh, yeah
(Yeah, yeah)
Ooh, yeah
(Yeah, yeah)
Ooh, yeah,
yeah (Yeah, yeah)
I wanna
follow your star
Wherever it
leads me
And I don't
mind, Lord
I hope you
don't mind
I wanna
walk with you
And talk
with you
And do all
the things you want me to do
'Cause I
know that Jesus
(Jesus is
Love, I know) 'Cause I know, Lord
(And if you
ask, I'll show)
(Love is
the word forever) And ever and ever
Who can
bring you love (Jesus)
Who can
bring you joy (Jesus)
Who can
turn your life around (Jesus), oh
Ooh, yeah
(Yeah, yeah)
Yeah (Yeah,
yeah)
Hey
Who will
pick you up (Jesus)
When you
fall (Jesus)
Who'll
stand beside you (Jesus)
Who will
love us all
Hey, hey,
Jesus (Yeah, yeah)
Jesus
(Yeah, yeah)
Oh, yeah
(Yeah, yeah)
One thing I
wanna say
Who can
heal your body (Jesus)
Who can
make you strong (Jesus)
Who can
help you to hold out (Jesus)
A little
while longer
Ooh, yeah
(Yeah, yeah)
Yeah (Yeah,
yeah)
Jesus loves
you (Yeah, yeah), Jesus wants you
If you call
Him, He will answer
(Jesus)
Call him in the mornin'
(Jesus)
Call him in the evenin'
(Jesus)
Call him in the midnight hour
Hey, hey
(Yeah, yeah)
Yeah (Yeah,
yeah)
Yeah, yeah
(Yeah, yeah)
Yeah, y'all
say it for me
(Jesus is love)
Jesus É Amor
Pai
Ajude seus filhos
E não os deixe cair
ao longo da estrada
Ensine-os
A amar uns aos outros
Que o Paríso possa ser
Um lugar em seus corações
Jesus é amor
Ele não te deixará caido
E eu sei, Ele é amor
Oh, em meu coração
Nós temos que caminhar
Caminhar através das tentações
Pois Seu amor e Sua sabedoria
Será a mão a nos socorrer
Eu conheço a Verdade
E Suas palavras serão a nossa salvação
Eleva os nossos corações
Para que sejam gratos e alegres
Jesus é amor
Ele não te deixará caido
E eu sei, Ele é meu
Na profundeza de minh'alma
Jesus é amor
Oh, sim, Ele É
E não o deixará caido
E eu sei, Ele é meu, Ele é meu, Ele é meu, Ele é
meu, todo meu
Para Sempre, oh,no meu coração
Ooh...Ooh...
(no fundo do meu coração)
Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei
Ah, pois Seu amor é o Poder (Poder)
Seu amor é a Glória (Glória)
Para Sempre (Todo sempre)
Ooh, yeah (Yeah, yeah)
Ooh, yeah
(Yeah, yeah)
Ooh, yeah,
yeah (Yeah, yeah)
Eu quero seguir a Sua estrela
Aonde ela me guiar
Eu não me importo Senhor
E espero que Você não se importe
Eu quero caminhar com Você
E conversar com Você
E fazer todas as coisas que Você quiser que eu faça
Por que eu sei que Jesus
(Jesus é amor, eu sei) Pois eu sei, Senhor
(E se voce perguntar, eu mostrarei)
(Amor pe a palavra para sempre) E sempre e sempre
Quem pode te trazer amor ? (Jesus)
Quem pode lhes trazer alegria ? (Jesus)
Quem pode mudar sua vida ?(Jesus) oh
Ooh, yeah
(Yeah, yeah)
Yeah (Yeah,
yeah)
Hey
Quem pode te erguer ? (Jesus)
Quando você cair? (Jesus)
Quem ficará ao seu lado ? (Jesus)
Quem amará a todos nós ?
Hey, hey,
Jesus (Yeah, yeah)
Jesus
(Yeah, yeah)
Oh, yeah
(Yeah, yeah)
Quero te dizer uma coisa
Quem pode curar seu corpo? (Jesus)
Quem pode te fazer forte? (Jesus)
Quem pode te ajudar a suportar (Jesus)
Um pouco mais ?
Ooh, yeah (Yeah, yeah)
Yeah (Yeah, yeah)
Jesus te ama (Yeah, yeah) Jesus te quer
E se voce chama-Lo, Ele responderá
(Jesus) Chame-o pela manhã
(Jesus) Chame-o à noite
(Jesus) Chame-o à meia noite
Hey, hey
(Yeah, yeah)
Yeah (Yeah,
yeah)
Yeah, yeah (Yeah, yeah)
Yeah, Digam isso para mim
(Jesus is Love)
Monday, December 21, 2015
Lágrima do Sul, dor pura e resistência enfrentam o preconceito
LAGRIMA DO SUL, Milton
Nascimento
Encontros e Despedidas, 1985
Ouçam que maravilha, o comprometimento e a raça.
Reviver tudo o que sofreu
Porto de desesperança e lágrima
Dor de solidão
Reza pra teus orixás
Guarda o toque do tambor
Pra saudar tua beleza
Na volta da razão
Pele negra, quente e meiga
Teu corpo e o suor
Para a dança da alegria
E mil asas pra voar
Que haverão de vir um dia
E que chegue já, não demore, não
Hora de humanidade, de acordar
Continente e mais
A canção segue a pedir por ti
África, berço de meus pais
Ouço a voz de seu lamento
De multidão
Grade e escravidão
A vergonha dia a dia
E o vento do teu sul
É semente de outra história
Que já se repetiu
A aurora que esperamos
E o homem não sentiu
Que o fim dessa maldade
É o gás que gera o caos
É a marca da loucura
África, em nome de deus
Cala a boca desse mundo
E caminha, até nunca mais
A canção segue a torcer por nós
África tudo o que sofreu
Porto de desesperança e lágrima
Dor de solidão
Reza pra teus orixás
Guarda o toque do tambor
Pra saudar tua beleza
Na volta da razão
Pele negra, quente e meiga
Teu corpo e o suor
Para a dança da alegria
E mil asas pra voar
Que haverão de vir um dia
E África, em nome de deus
Cala a boca desse mundo
E caminha, até nunca mais
A canção segue a torcer por nós
Wednesday, December 09, 2015
A excepcional vibração da certeza do amor!
Fanatismo
Para aquele a quem amo e que
é a razão da minha vida!
Porque
tu és como um deus, principio e fim. Já te falei de tudo, mas tudo isto é
pouco... Diante do que sinto!
Fagner
Minh' alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver
pois que tu és já toda minha vida
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história, tantas vezes lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
De uma boca divina, fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,(x2)
Que tu és como um deus: princípio e fim!...(x2)
Eu já te falei de tudo, mas tudo isso é pouco,
diante do que sinto.
Saturday, November 07, 2015
Nao se tem razão o amor
Os amantes
Rubem Braga
Céus,
isto é lindo demais. Vivi duas vezes apenas e apenas um e depois três dias. Minha
vida mudou, sonho com este largor, este abandono e entrega. Fiquei por 23 anos atrás
desse conto, li-o ainda adolescente. É lindo!
Os
Amantes por Rubem Braga
Nos dois primeiros dias, sempre que o telefone tocava, um de nós esboçava um movimento, um gesto de quem vai atender. Mas o movimento era cortado no ar. Ficávamos imóveis, ouvindo a campainha bater, silenciar, bater outra vez. Havia um certo susto, como se aquele trinado repetido fosse uma acusação, um gesto agudo nos apontando. Era preciso que ficássemos imóveis, talvez respirando com mais cuidado, até que o aparelho silenciasse.
Então tínhamos um suspiro de alívio. Havíamos vencido mais uma vez os nossos inimigos. Nossos inimigos eram toda a população da cidade imensa, que transitava lá fora nos veículos dos quais nos chegava apenas um ruído distante de motores, a sinfonia abafada das buzinas, às vezes o ruído do elevador. Sabíamos quando alguém parava o elevador em nosso andar; tínhamos o ouvido apurado, pressentíamos os passos na escada antes que eles se aproximassem. A sala da frente estava sempre de luz apagada. Sentíamos, lá fora, o emissário do inimigo. Esperávamos quietos. Um segundo, dois – e a campainha da porta batia, alto, rascante. Ali, a dois metros, atrás da porta escura, estava respirando e esperando um inimigo. Se abríssemos, ele – fosse quem fosse – nos lançaria um olhar, diria alguma coisa – e então o nosso mundo seria invadido.
No segundo dia ainda hesitamos; mas resolvemos deixar que o pão e o leite ficassem lá fora; o jornal era remetido por baixo da porta, mas nenhum de nós o recolhia. Nossas provisões eram pequenas; no terceiro dia já tomávamos café sem açúcar, no quarto a despensa estava praticamente vazia. No apartamento mal iluminado íamos emagrecendo de felicidade. Devíamos estar ficando pálidos, e às vezes, unidos, olhos nos olhos, nos perguntávamos se tudo não era um sonho. O relógio parara, havia apenas aquela tênue claridade que vinha das janelas sempre fechadas. Mais tarde essa luz do dia distante, do dia dos outros, ia se perdendo, e então era apenas uma pequena lâmpada no chão que projetava nossas sombras nas paredes do quarto e vagamente escoava pelo corredor, lançava ainda uma penumbra confusa na sala, onde não íamos mais.
Pouco falávamos: se o inimigo estivesse escutando às nossas portas, mal ouviria vagos murmúrios; e a nossa felicidade imensa era ponteada de alegrias menores e inocentes, a água forte e grossa do chuveiro, a fartura festiva de toalhas limpas, de lençóis de linho.
O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós; o telefone batia menos e a campainha da porta quase nunca. Ah, nós tínhamos vindo de muito e muito amargor, muita hesitação, longa tortura e remorso; agora a vida era nós dois apenas.
Sabíamos estar condenados; os inimigos, os outros, o resto da população do mundo nos esperava para lançar olhares, dizer coisas, ferir com maldade ou tristeza o nosso mundo, nosso pequeno mundo que ainda podíamos defender um dia ou dois, nosso mundo trêmulo de felicidade, sonâmbulo, irreal, fechado, e tão louco e tão bobo e tão bom como nunca mais haverá.
No sexto dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares edifícios – que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?
Entretanto, a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar: e assim três, quatro vezes sucessivas.
Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.
Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se os meus cabelos já tivesse o cheiro de seus cabelos, como se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nosso corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado de frente para a janela, por onde filtrava um eco pálido de luz, eu a contemlava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”.
Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamsse outro; inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível como um lento bailado.
Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me, lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?
Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.
Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos, o homem fez um grande embrulho; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.
E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre se acabara; alguém viera e batera à porta e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo recibo de uma carta registrada e, quando o telefone bateu, foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isto num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo que não os via assim, em plena luz) um olhar de apelo e de tristeza, onde, entretanto, ainda havia uma inútil, resignada esperança.
Nos dois primeiros dias, sempre que o telefone tocava, um de nós esboçava um movimento, um gesto de quem vai atender. Mas o movimento era cortado no ar. Ficávamos imóveis, ouvindo a campainha bater, silenciar, bater outra vez. Havia um certo susto, como se aquele trinado repetido fosse uma acusação, um gesto agudo nos apontando. Era preciso que ficássemos imóveis, talvez respirando com mais cuidado, até que o aparelho silenciasse.
Então tínhamos um suspiro de alívio. Havíamos vencido mais uma vez os nossos inimigos. Nossos inimigos eram toda a população da cidade imensa, que transitava lá fora nos veículos dos quais nos chegava apenas um ruído distante de motores, a sinfonia abafada das buzinas, às vezes o ruído do elevador. Sabíamos quando alguém parava o elevador em nosso andar; tínhamos o ouvido apurado, pressentíamos os passos na escada antes que eles se aproximassem. A sala da frente estava sempre de luz apagada. Sentíamos, lá fora, o emissário do inimigo. Esperávamos quietos. Um segundo, dois – e a campainha da porta batia, alto, rascante. Ali, a dois metros, atrás da porta escura, estava respirando e esperando um inimigo. Se abríssemos, ele – fosse quem fosse – nos lançaria um olhar, diria alguma coisa – e então o nosso mundo seria invadido.
No segundo dia ainda hesitamos; mas resolvemos deixar que o pão e o leite ficassem lá fora; o jornal era remetido por baixo da porta, mas nenhum de nós o recolhia. Nossas provisões eram pequenas; no terceiro dia já tomávamos café sem açúcar, no quarto a despensa estava praticamente vazia. No apartamento mal iluminado íamos emagrecendo de felicidade. Devíamos estar ficando pálidos, e às vezes, unidos, olhos nos olhos, nos perguntávamos se tudo não era um sonho. O relógio parara, havia apenas aquela tênue claridade que vinha das janelas sempre fechadas. Mais tarde essa luz do dia distante, do dia dos outros, ia se perdendo, e então era apenas uma pequena lâmpada no chão que projetava nossas sombras nas paredes do quarto e vagamente escoava pelo corredor, lançava ainda uma penumbra confusa na sala, onde não íamos mais.
Pouco falávamos: se o inimigo estivesse escutando às nossas portas, mal ouviria vagos murmúrios; e a nossa felicidade imensa era ponteada de alegrias menores e inocentes, a água forte e grossa do chuveiro, a fartura festiva de toalhas limpas, de lençóis de linho.
O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós; o telefone batia menos e a campainha da porta quase nunca. Ah, nós tínhamos vindo de muito e muito amargor, muita hesitação, longa tortura e remorso; agora a vida era nós dois apenas.
Sabíamos estar condenados; os inimigos, os outros, o resto da população do mundo nos esperava para lançar olhares, dizer coisas, ferir com maldade ou tristeza o nosso mundo, nosso pequeno mundo que ainda podíamos defender um dia ou dois, nosso mundo trêmulo de felicidade, sonâmbulo, irreal, fechado, e tão louco e tão bobo e tão bom como nunca mais haverá.
No sexto dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares edifícios – que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?
Entretanto, a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar: e assim três, quatro vezes sucessivas.
Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.
Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se os meus cabelos já tivesse o cheiro de seus cabelos, como se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nosso corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado de frente para a janela, por onde filtrava um eco pálido de luz, eu a contemlava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”.
Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamsse outro; inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível como um lento bailado.
Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me, lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?
Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.
Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos, o homem fez um grande embrulho; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.
E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre se acabara; alguém viera e batera à porta e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo recibo de uma carta registrada e, quando o telefone bateu, foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isto num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo que não os via assim, em plena luz) um olhar de apelo e de tristeza, onde, entretanto, ainda havia uma inútil, resignada esperança.
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